“Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra”. - Atos 1.8
É relativamente fácil falar sobre a fidelidade de Deus quando as portas estão abertas, as orações estão sendo respondidas, os projetos estão avançando e conseguimos perceber claramente aquilo que Deus está fazendo. O grande desafio da fé começa quando obedecemos a Deus e, mesmo assim, encontramos portas fechadas, oposição, perdas e situações que não conseguimos compreender.
É nesse lugar em que Atos 16 torna-se uma passagem tão necessária para a Igreja. Precisamos compreender o que aconteceu antes da prisão.
Paulo não chegou à Macedônia por acaso. No início do capítulo, ele e seus companheiros tentaram seguir determinadas direções, mas foram impedidos pelo Espírito Santo. Então Paulo teve uma visão durante a noite: um homem macedônio suplicava: “Passe à Macedônia e ajude-nos.” (v. 9)
Eles concluíram que Deus os chamara para anunciar o evangelho naquela região. Portanto, quando Paulo e Silas chegam a Filipos, estão ali em resposta à direção de Deus.
Lídia se converte, sua casa é alcançada. Uma jovem escravizada por homens e atormentada espiritualmente é liberta. O evangelho começa a produzir transformação naquela cidade.
Mas essa libertação atinge interesses econômicos. Quando os proprietários da jovem percebem que perderam sua fonte de lucro, levam Paulo e Silas à força para as autoridades. A multidão se levanta contra eles. Suas roupas são arrancadas, eles são açoitados publicamente e lançados no cárcere interior, com os pés presos ao tronco
Isso cria uma tensão teológica importante: eles obedeceram a Deus e terminaram presos
Talvez alguém pudesse perguntar: “Se foi Deus quem os enviou para a Macedônia, por que permitiu que eles fossem açoitados?”. “Se estavam cumprindo a missão, por que Ele não os protegeu?”. “Se estavam no centro da vontade de Deus, por que as coisas deram errado?”
A resposta do texto é desconfortável para uma fé baseada apenas em resultados: porque estar na vontade de Deus nunca significou viver sem sofrimento.
Às vezes criamos uma equação que a Bíblia nunca prometeu: obediência é igual a facilidade. Fidelidade é igual a ausência de problemas. Presença de Deus significa que tudo acontece como esperamos.
Mas basta olhar para as Escrituras para perceber que essa equação não funciona. José estava nos propósitos de Deus e conheceu a prisão. Daniel permaneceu fiel e conheceu a cova. Jeremias anunciou a Palavra e conheceu rejeição. Os apóstolos obedeceram e conheceram perseguição. Paulo pregou o evangelho e conheceu cadeias. E Jesus, o Filho perfeitamente obediente ao Pai, conheceu a cruz.
Portanto, o sofrimento nem sempre significa ausência de Deus; algumas vezes encontramos sofrimento justamente enquanto caminhamos em obediência a Deus.
Isso muda a pergunta que fazemos diante das lutas. Em vez de perguntarmos apenas: “Senhor, por que o Senhor permitiu que isso acontecesse?”Talvez precisemos também perguntar: “Senhor, como posso permanecer fiel enquanto atravesso aquilo que não compreendo?”
Porque a grande questão de Atos 16 não é simplesmente como Paulo e Silas saíram da prisão. É quem Paulo e Silas continuaram sendo dentro da prisão.
Antes de Deus mudar as circunstâncias, aqueles homens demonstraram que as circunstâncias não haviam mudado sua confiança em Deus. O terremoto aconteceu depois. As portas se abriram depois. As correntes caíram depois. O carcereiro se converteu depois.
Mas antes de tudo isso, à meia-noite, quando nada havia mudado, eles estavam orando e cantando. Esta é a espiritualidade que Atos 16 nos apresenta: uma fé que não precisa esperar a manhã chegar para continuar confiando em Deus.