“Naquele tempo houve um grande tumulto por causa do Caminho. Um ourives chamado Demétrio, que fazia miniaturas de prata do templo de Ártemis e que dava muito lucro aos artífices, reuniu-os, juntamente com os trabalhadores dessa profissão, e disse: ‘Senhores, vocês sabem que temos uma boa fonte de lucro nesta atividade e estão vendo e ouvindo como este indivíduo, Paulo, está convencendo e desviando grande número de pessoas aqui em Éfeso e em quase toda a província da Ásia, dizendo que deuses feitos por mãos humanas não são deuses. Não somente há o perigo de nossa profissão perder sua reputação, mas também de o templo da grande deusa Ártemis cair em descrédito e de a própria deusa, adorada em toda a província da Ásia e em todo o mundo, ser destituída de sua majestade.’” (Atos 19.23-27)
Ao longo desta série, temos descoberto no livro de Atos algumas marcas da Igreja que Jesus sonhou. Uma igreja cheia do Espírito, firmada na Palavra, perseverante na comunhão, dedicada à oração, comprometida com o serviço e envolvida com a missão.
Mas existe algo que precisamos compreender: Jesus não estabeleceu sua Igreja simplesmente para ocupar um espaço dentro das cidades; Ele estabeleceu sua Igreja para ser testemunha dentro delas.
Jesus disse em Atos 1.8: “Vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas…”.
Portanto, desde o princípio, a igreja possui uma vocação para fora. Ela se reúne para adorar, aprender, orar e ser fortalecida, mas depois é enviada para viver aquilo que recebeu.
A igreja se reúne, mas não existe apenas para a reunião. Ela existe para glorificar a Deus e manifestar Cristo no lugar onde foi plantada.
Quando chegamos a Atos 19, encontramos o Evangelho chegando com força a Éfeso. Não estamos diante de uma cidade religiosamente neutra: Éfeso possuía uma identidade profundamente associada ao culto de Ártemis. A religião estava ligada à cultura, ao prestígio da cidade e também à sua economia.
É justamente nesse ambiente que Paulo anuncia Jesus. Ele não chega com exército, não possui poder político, não controla as estruturas econômicas da cidade,não possui os instrumentos de comunicação que temos hoje.
Ele possui apenas aquilo que a igreja sempre precisou possuir: a Palavra de Deus, o poder do Espírito Santo e a convicção de que Jesus Cristo é Senhor.
E algo extraordinário começa a acontecer. Lucas resume o movimento em Atos 19.20: “Dessa maneira a palavra do Senhor muito se difundia e se fortalecia”.
A Palavra estava sendo expandida, mas observe: quando a Palavra é expandida, alguma coisa precisa ser reduzida. Quando Cristo começa a ocupar o coração, alguns ídolos começam a perder espaço. Quando o Evangelho transforma convicções, começa também a transformar comportamentos. Quando comportamentos mudam, relacionamentos mudam. Quando relacionamentos mudam, famílias mudam. Quando famílias mudam, ambientes começam a mudar. E quando muitas vidas são transformadas, a cidade começa a perceber os efeitos do Evangelho.
Foi exatamente isso que aconteceu em Éfeso. Antes do tumulto de Atos 19.22-34, Lucas registra algo impressionante em Atos 19.18-19: “Muitos dos que creram vinham, e confessavam e declaravam abertamente suas más obras. Grande número dos que tinham praticado ocultismo reuniram seus livros e os queimaram publicamente...”
O Evangelho estava deixando de ser apenas uma mensagem ouvida e estava se tornando uma mensagem vivida. As pessoas não estavam apenas mudando de religião, estavam mudando de direção. E a transformação foi tão profunda que Demétrio, um homem que não cria em Jesus, percebeu o que estava acontecendo.
Ele declara: “Paulo está convencendo e desviando grande número de pessoas aqui em Éfeso e em quase toda a província da Ásia”. Que testemunho extraordinário! Quem reconhece o impacto do Evangelho não é um discípulo. É um adversário.
Demétrio percebeu que, se as pessoas continuassem encontrando Jesus, a maneira como viviam continuaria mudando, e aquilo começaria a atingir inclusive os interesses econômicos ligados à idolatria.
É aqui que encontramos um princípio fundamental: O Evangelho verdadeiro nunca permanece restrito ao interior do templo. Ele alcança pessoas e, através das pessoas transformadas, alcança casas, relacionamentos, profissões e comunidades.
Por isso, uma pergunta precisa acompanhar esta mensagem: Que diferença a nossa presença está fazendo na cidade onde Deus nos colocou? Não basta perguntarmos quantas pessoas estão entrando na igreja. Precisamos também perguntar: Quanto da igreja está entrando na cidade? Porque a igreja que Jesus sonhou não existe apenas na cidade. Ela existe para testemunhar de Cristo à cidade.